Uma Reflexão Introdutória sobre Métodos de Pesquisa

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[O texto abaixo é uma colaboração de Thiago Falcão, pós-doutorando e professor, que é apoiado pelo BrandCare em um estudo acadêmico]

 

Chamando atenção para o Método

O principal intuito deste pequeno texto é iniciar uma sequência de reflexões acerca de métodos de pesquisa voltados para o mercado comunicacional.

Em se tratando de pesquisa, a escolha da metodologia é crucial – sabemos disso. De fato, é até curioso que se sublinhe este ponto, uma vez que as disciplinas de teoria e método nos cursos de graduação Brasil afora repetem este mantra de forma exaustiva. Ao mesmo tempo em que é uma lente de interpretação, e permite que tiremos conclusões acerca de certo contexto ou problema, a metodologia é, também, uma escolha de meio.

Esta palavra é complexa e merece ser tratada com cautela. A questão, ao tratar a metodologia como meio, é entender que o método não responde qualquer pergunta; que é necessário ter em mente que a questão geralmente aponta para sua resposta. Isso quer dizer que o próprio objetivo da pesquisa já aponta para que método deve ser utilizado, ou que cada metodologia oferece um tipo de resposta específico.

Em suma, “o meio é a mensagem”.

 

Especificidades Metodológicas: Etnografia e ARS

Isso significa que existem métodos adequados para problemas específicos. Consideremos, por exemplo, a ideia de etnografia. É comum que nos deparemos com usos simplistas ou mal posicionados deste método. A extração de dados conversacionais ou contextuais por exemplo, tem sido lida cada vez mais como de cunho etnográfico, quando, na verdade, não passa de um procedimento de observação que não está necessariamente relacionado a nenhum método específico.

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A utilização deste método pressupõe um contato íntimo com o contexto observado; requer que o pesquisador se torne não apenas especialista na subcultura, mas sim um exemplar dela. É impossível fazer etnografia sem detalhamento e entendimento de padrões culturais inerentes ao contexto observado. Fato é que o uso funcional (muitas vezes leviano) de um método como este resulta em um entendimento equivocado de dinâmicas sociais e dos próprios integrantes de um ou outro agrupamento cultural.

Um dos empecilhos em se utilizar aportes etnográficos, como podemos deduzir a partir da breve explanação, é que as agências raramente vão dedicar um profissional por tanto tempo para o entendimento de uma cultura ou grupo social específico. Isso acarreta em uma simplificação do método que não o invalida, mas que precisa ser empreendida com cuidado.

De forma análoga, consideremos a utilização da Análise de Redes Sociais (ARS) – um método que se torna cada vez mais popular e que possui uma implementação bastante robusta no Brandcare – que revela certas características da organização informacional e da conversação em rede, mas o faz tendendo a esconder as especificidades do discurso.

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Isso acontece porque, parafraseando Raquel Recuero, “a Análise de Redes Sociais serve para desvelar a estrutura das redes. Isso significa que podemos observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”. Assim sendo, é muito mais importante, em um método como este, visualizar questões de âmbito mais geral: conexões, sentidos do fluxo informacional e quem fala sobre o quê.

Exemplos nacionais interessantes da ARS aplicados ao âmbito comunicacional podem ser encontrados no trabalho da própria Raquel ou no trabalho do Labic da Universidade Federal do Espírito Santo, que demonstram continuamente as milhares de menções analisadas em grafos super-coloridos que revelam de que forma o uso das mídias sociais por parte dos brasileiros dialoga com as agendas políticas e mercadológicas do país.

 

A César o que é de César

Pode-se sublinhar, portanto, que certos métodos respondem certos problemas – e, por consequência, não respondem outros. Sobretudo, um método não dá conta de qualquer problema, o que significa que um profissional precisa não apenas entender de metodologia, mas principalmente entender de que forma a questão enunciada melhor se adequa às ferramentas disponíveis. A verdadeira inteligência no mercado jaz em não acreditar que é a ferramenta que responde pela boa pesquisa, mas sim que é necessário que exista uma integração entre esta e a desenvoltura do profissional.

O aporte etnográfico e a ARS, apenas para sublinhar dois exemplos, são caminhos que endereçam tipos diferentes de problemas, e que portanto, provêm respostas diferentes para cada um deles. Claro, nenhum método é engessado, todos permitem apropriações e combinações; mas subsiste a necessidade de entender da estrutura de cada um deles para saber o que e onde apropriar e combinar.

 

Thiago Falcão é Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Pós-Doutorando na Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo e Professor Assistente na Universidade Federal Fluminense em Niterói.

2 Comments

  • viviamaral disse:

    Gosite. Chama atenção para um comportamento muito comum, em várias áreas: a adoção superficial de metodologias, principalmente quando estão na moda.

    • viviamaral disse:

      Corrigindo: Gostei. hama atenção para um comportamento muito comum, em várias áreas: a adoção superficial de metodologias, principalmente quando estão na moda.

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